Registros familiares, relatos de antigos moradores, literatura regional e uma reportagem publicada em 1945 ajudam a reconstruir a trajetória de João Jorge da Cunha, personagem ligado à pecuária e às grandes caçadas de onça na região de Cáceres e do Rio Jauru. Uma história que atravessa as décadas de 1940, 1950 e 1960 e revela também como mudou a relação do homem com a fauna pantaneira.

Registro histórico preservado pela família. Ao centro, João Jorge da Cunha, personagem cuja trajetória ficou associada às grandes propriedades rurais e às caçadas de onça no antigo oeste mato-grossense.
Há histórias que permanecem guardadas em documentos oficiais. Outras sobrevivem em fotografias amareladas, livros fora de circulação, recortes de jornais, lembranças familiares e relatos transmitidos de geração em geração.
A trajetória de João Jorge da Cunha pertence a esse segundo grupo.
Seu nome está ligado a um período em que as grandes propriedades rurais, a criação extensiva de gado, as longas distâncias e uma relação muito diferente da atual com a natureza definiam parte da vida 1no oeste de Mato Grosso.
Em registros sobre a região de Cáceres, Glória d’Oeste e do Rio Jauru, João Jorge aparece como fazendeiro e, sobretudo, como um conhecido caçador de onças.
Hoje, quando a onça-pintada é símbolo da biodiversidade pantaneira e sua conservação mobiliza pesquisadores e instituições ambientais, histórias sobre a morte de centenas desses animais causam inevitável impacto. Mas compreender aquele período exige situá-lo em seu contexto histórico: a caça de grandes felinos era então associada à proteção dos rebanhos, ao modo de vida rural e, também, ao esporte e ao prestígio social.
É dentro desse passado – sem romantizá-lo nem julgá-lo pelos costumes de hoje – que emerge a história de João Jorge da Cunha.
O homem por trás da história

Retrato de João Jorge da Cunha. A imagem integra o conjunto de registros preservados sobre a memória familiar.
Uma antiga fotografia de João Jorge da Cunha ajuda a aproximar o personagem histórico do presente.
De terno, gravata e olhar firme diante da câmera, seu retrato permaneceu preservado ao longo das décadas. Na inscrição associada à fotografia aparecem seu nome e as datas 12 de fevereiro de 1896 e 14 de fevereiro de 1965.
Sua vida coincidiu com profundas transformações de Mato Grosso. Nasceu no final do século XIX, atravessou a primeira metade do século XX e morreu em 1965.
Era um mundo no qual fazendas ficavam separadas dos centros urbanos por grandes distâncias, estradas eram precárias e a presença do poder público era limitada em extensas áreas rurais. É nesse cenário que a atividade de João Jorge precisa ser compreendida.
Quando caçar onças fazia parte da vida nas fazendas
Um dos registros mais detalhados sobre João Jorge está no livro “Cruzeiro D’Oeste nos Tempos de Glória”, de Claudomiro Savoine.

Páginas de “Cruzeiro D’Oeste nos Tempos de Glória”, de Claudomiro Savoine, com relatos sobre João Jorge da Cunha, suas caçadas e os acontecimentos que antecederam sua morte.
A obra descreve uma época em que praticamente inexistiam as atuais restrições ambientais à caça de animais silvestres. Nesse contexto, João Jorge da Cunha teria se tornado um obstinado caçador de onças, tanto pela proteção das propriedades e rebanhos quanto pelo esporte e lazer.
Segundo o registro, chegou a praticar caçadas na companhia de europeus que atravessavam o Atlântico para realizar safáris e colecionar peles em terras mato-grossenses.
João Jorge possuía duas matilhas de cães adestrados para localizar e acuar felinos. As expedições percorriam áreas como os espigões do Córrego Caeté, furnas, cavernas e serras da região, em busca de onças-pintadas, jaguatiricas, suçuaranas e outros felinos.
A obra que preservou parte dessa memória

Capa do livro “Cruzeiro D’Oeste nos Tempos de Glória”, de Claudomiro Savoine, uma das fontes utilizadas para reconstruir a trajetória de João Jorge da Cunha e episódios ligados às antigas propriedades e caçadas da região.
Registro de uma caçada de onça

Fotografia histórica preservada pela família mostra um grupo de homens, acompanhado por cães, diante de uma onça abatida. A imagem ilustra o contexto das expedições de caça realizadas na região nas primeiras décadas e meados do século XX.
Nas grandes propriedades, capatazes e peões tinham importância fundamental. Conhecedores dos retiros do gado, das matas, rios e locais onde os felinos apareciam, auxiliavam no rastreamento e na condução das expedições. Os cães eram igualmente decisivos: farejavam os animais, seguiam rastros e acuavam as onças, permitindo a aproximação dos caçadores.
Os 425 piques em uma tábua
Um dos elementos mais impressionantes preservados pela memória familiar diz respeito à forma utilizada por João Jorge para contabilizar os animais abatidos.
Não havia planilhas, cadernos de registro ou fotografias para cada caçada. O método era rudimentar: uma tábua e um formão. Para cada onça morta, fazia-se um pique na madeira.
Denize Aparecida Jorge da Cunha, sobrinha do caçador e moradora de Glória d’Oeste, relatou que nunca contou pessoalmente todas as marcas, mas que se dizia que a tábua havia alcançado 425 piques. O número também encontra eco em outra fonte histórica.
Um jornal do Rio de Janeiro registrou o número em 1945
A história de João Jorge da Cunha ultrapassou os relatos familiares e a literatura regional. Em 21 de janeiro de 1945, o Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, publicou a reportagem “Batalha da Borracha- Aguapeí ao Jauru”, assinada por Fábio Doria.

Trecho da edição do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, de 21 de janeiro de 1945. Na reportagem “Batalha da Borracha Aguapeí ao Jauru”, Fábio Doria registra João Jorge da Cunha como fazendeiro, usineiro e caçador de onças, atribuindo-lhe 425 animais abatidos.
Em meio à descrição da região do Jauru, o jornalista registrou:
“João Jorge da Cunha, um dos irmãos fazendeiros e usineiros do Jauru, é um grande caçador de onças. Já abateu até agora 425, na maioria pintadas.”

Edição do Diário de Notícias de 21 de janeiro de 1945, documento que ajuda a situar historicamente a presença da família Jorge da Cunha na região do Jauru.
A publicação é particularmente relevante porque demonstra que a fama atribuída posteriormente a João Jorge já circulava publicamente em 1945, ainda durante sua vida. Ao menos em janeiro daquele ano, portanto, o número de 425 onças já aparecia impresso em um jornal de circulação no Rio de Janeiro.
A Fazenda Santa Cruz e um rebanho de milhares de cabeças
A trajetória da família também se relaciona à expansão da pecuária regional. Entre as propriedades associadas a essa história está a Fazenda Santa Cruz, apontada nos registros reunidos pela família como uma das grandes propriedades pastoris da região de Cáceres e do Rio Jauru.
Sua origem é atribuída a Antônio Jorge, no início do século XX, com a administração passando posteriormente a João Jorge da Cunha. Em meados da década de 1940, os registros reunidos indicam que a propriedade teria alcançado um rebanho superior a 10 mil cabeças de gado, criadas extensivamente.
Esse dado ajuda a compreender uma das razões pelas quais as onças eram vistas pelos fazendeiros de então como ameaça econômica. Nas extensas áreas rurais, perdas provocadas por predadores atingiam diretamente o patrimônio das propriedades. Assim, as expedições reuniam familiares, fazendeiros, capatazes, peões e cães especialmente treinados.
Isso não significa que todas as caçadas fossem exclusivamente defensivas. Os próprios relatos registram também o componente esportivo e recreativo da atividade.
“Seu João me empurrou de lado e disparou”
Algumas das passagens mais vivas dessa história não estão nos números, mas nas lembranças de quem esteve próximo de João Jorge.
Jacinto Ribeiro da Silva, antigo morador de Glória d’Oeste e funcionário da propriedade quando ainda era menino, relatou que acompanhava o caçador em incursões contra as “gatas”, expressão utilizada para os grandes felinos que atacavam animais domésticos.
Uma dessas experiências quase terminou em tragédia. Segundo Jacinto, os cães haviam acuado uma onça-pintada em uma região próxima de áreas posteriormente conhecidas como Sonho Azul e Mirassol. O menino seguia à frente, abrindo a picada com um facão. Foi quando encontrou a onça. O animal avançou.
Jacinto recordou que João Jorge reagiu imediatamente: empurrou o menino para o lado e atirou contra a fera. O disparo atingiu o olho do animal. A lembrança permaneceu por décadas como um dos episódios mais marcantes narrados por quem acompanhou João Jorge nas caçadas.
Quando o tiro não resolvia: a zagaia
A arma de fogo, porém, não garantia segurança. Os relatos reunidos registram que, quando o disparo não atingia corretamente o animal, o confronto poderia se transformar rapidamente em uma situação de extremo perigo.
Nessas circunstâncias, João Jorge recorreria também à zagaia, arma de haste utilizada a curta distância. Sua filha, Sônia Cebalho da Cunha, preservou essa lembrança ao falar das situações enfrentadas pelo pai:
“Nesse caso é melhor usar a zagaia, era assim que papai se defendia nas horas de apuros.”
O caçador que terminou atingido por uma serpente
O desfecho da vida de João Jorge da Cunha carrega uma ironia que os próprios registros históricos destacam. Depois de décadas enfrentando grandes felinos, foi um animal muito menor que determinou seu destino.
Em 1965, já envelhecido e com a visão enfraquecida, João Jorge realizava atividades no terreiro da Fazenda São Joaquim, de sua propriedade, quando foi atingido por uma serpente venenosa.
A fazenda ficava às margens do antigo traçado da estrada de terra que posteriormente corresponderia à BR-174, nas proximidades da atual Fazenda Colina.
Segundo o relato atribuído a Jacinto, João Jorge estava capinando quando pediu uma enxada. Pouco depois, retornou passando mal. Uma cobra havia picado seu pé. O animal teria sido encontrado morto próximo a um cupinzeiro.
Na fazenda, João Jorge recebeu soro antiofídico do Instituto Butantan, disponível para situações desse tipo. Entretanto, chegar a Cáceres naquele período era uma operação demorada. O transporte teria sido feito em um caminhão utilizado para carregar toras. Deitado sobre um colchão, João Jorge iniciou o longo percurso em busca de atendimento.
Não resistiu. Faleceu em 14 de fevereiro de 1965, dois dias depois de completar 69 anos.
As terras se dividiram, mas as histórias permaneceram
Após a morte do patriarca, propriedades ligadas à família, entre elas áreas identificadas nos relatos como Fazenda Cachoeira e outras terras pertencentes ao domínio familiar, foram divididas, vendidas ou transformadas em propriedades menores.
O território mudou. Estradas chegaram. Municípios cresceram. Fazendas foram repartidas. A legislação ambiental se transformou profundamente. A caça que antes aparecia em jornais e relatos como demonstração de coragem ou defesa patrimonial passou a ser proibida e socialmente compreendida de outra maneira.
Mas parte da memória permaneceu entre os descendentes.

Descendentes preservam fotografias, documentos e relatos que ajudam a reconstruir a trajetória da família e das antigas propriedades da região. A memória familiar constitui uma das fontes utilizadas para recuperar histórias que atravessaram gerações e permaneceram vinculadas ao território.

Uma história que também exige o olhar do presente
Contar a trajetória de João Jorge da Cunha em 2026 é necessariamente diferente de contá-la em 1945. Naquele jornal, o fato de um homem ter abatido centenas de onças podia ser apresentado como característica de um grande caçador. Hoje, o mesmo número produz outra reflexão.
A onça-pintada ocupa papel fundamental nos ecossistemas brasileiros, especialmente no Pantanal. A legislação brasileira contemporânea protege a fauna silvestre e a caça deixou de ser aceita como prática comum.
Isso não apaga o documento de 1945, nem os relatos posteriores. Ao contrário: torna-os ainda mais relevantes. Eles permitem observar como a sociedade mudou.
A história de João Jorge, portanto, não precisa ser transformada nem em celebração da caça nem em condenação simplista de um homem que viveu em outro contexto. Seu valor histórico está justamente em permitir enxergar as contradições de uma época.
Das fotografias amareladas à documentação histórica
Uma fotografia antiga mostra homens diante de uma cerca. Outra preserva o rosto jovem de João Jorge. Um livro publicado décadas depois registra histórias contadas por pessoas que conviveram com ele. Uma página de jornal de 1945 confirma que seu nome e suas caçadas já eram conhecidos enquanto ainda estava vivo.
Separadamente, cada peça conta apenas parte da história. Reunidas, formam um mosaico da ocupação rural do oeste de Mato Grosso durante a primeira metade do século XX: grandes fazendas, milhares de cabeças de gado, peões, capatazes, matilhas, rios, serras, estradas precárias e uma fauna abundante convivendo – muitas vezes de maneira conflituosa – com a expansão da atividade humana.
O que permanece de João Jorge da Cunha
Mais de seis décadas após sua morte, João Jorge da Cunha continua presente nas fotografias guardadas pela família, nos relatos de antigos moradores, nas páginas de livros regionais e até nas colunas envelhecidas de um jornal publicado a milhares de quilômetros de Mato Grosso.
O número de 425 onças, repetido pela tradição familiar, aparece também registrado no Diário de Notícias em 1945. Mas talvez o aspecto mais significativo de sua história não esteja apenas nessa cifra. Está no mundo que ela revela.
Um Mato Grosso anterior às estradas modernas, à atual legislação ambiental e à compreensão contemporânea sobre conservação. Um território no qual grandes propriedades rurais avançavam sobre áreas ainda pouco ocupadas e onde homens, rebanhos e animais selvagens disputavam os mesmos espaços.
João Jorge da Cunha foi personagem desse tempo. Contar sua trajetória é preservar uma parte da memória regional – inclusive aquilo que hoje causa desconforto. Porque patrimônio histórico não é formado apenas pelos acontecimentos que uma sociedade deseja celebrar. É também constituído pelas práticas, conflitos e transformações que ajudam a explicar como chegamos ao presente.
As onças que naquele período eram perseguidas hoje representam um dos maiores símbolos do Pantanal. As antigas fazendas foram divididas. Os caminhos de terra deram lugar a rodovias. Os personagens se foram.
Mas as fotografias, os documentos e as histórias ficaram.
E, enquanto forem preservados, continuarão permitindo que as novas gerações conheçam não apenas quem foi João Jorge da Cunha, mas também como era o Mato Grosso em que ele viveu.
Fontes e colaboradores da pesquisa
A reconstrução apresentada nesta matéria parte do material fornecido e reúne informações atribuídas ao livro “Cruzeiro D’Oeste nos Tempos de Glória”, de Claudomiro Savoine; aos relatos de Jacinto Ribeiro da Silva/Jacinto Aires, antigo morador e conhecedor da Fazenda São Joaquim; às memórias de Denize Aparecida Jorge da Cunha e Sônia Cebalho da Cunha; à reportagem “Batalha da Borracha – Aguapeí ao Jauru”, de Fábio Doria, publicada pelo Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em 21 de janeiro de 1945; e às referências indicadas à obra de José Lucídio Nunes Rondon, especialmente Tipos e Aspectos do Pantanal – Mato Grosso (1972) e Recursos Econômicos de Mato Grosso (1972).
Nota editorial: alguns detalhes biográficos, fundiários e depoimentos apresentados pertencem à memória familiar e às obras indicadas. Em uma publicação jornalística definitiva, é recomendável distinguir os fatos comprovados por documentos contemporâneos daqueles provenientes de tradição oral ou de registros memorialísticos posteriores.







